e-Crônica #22 - Og & Norberto

January 21st, 2008 by Renato Lellis

Og tem um problema.
Og é um homo sapiens, um dos primeiros modelos.
Ele também é o curandeiro de sua tribo, o que lhe proporciona uma vida fácil, em comparação com seus correligionários.
Ele está desincumbido, por exemplo, de participar das perigosas caçadas ao mamute e ao urso gigante, ao contrário do restante dos homens.

Lascaux2


Ele também não tem que caminhar horas a fio catando frutinhas e raízes, nem cuidar das crianças, como as mulheres da tribo.
Uma coisa, entretanto é de responsabilidade exclusiva dele: garantir que os desejos do Deus Criador sejam cumpridos, para trazer boa sorte para a tribo.
Naquele tempo, já que não existia FMI nem cheque especial, má sorte era um caminho rápido para que a tribo se transformasse em um conjunto curioso de fósseis.
Nos últimos tempos a tribo vem tendo uma sorte nem um pouco invejável.
Conseqüentemente a tribo está bastante infeliz com Og.
Ele está sentado em sua cabana, tendo uma reunião de realinhamento com o chefe.
O chefe grunhe, grita , baba, bate sua clava no chão e gesticula nervosamente em direção a Og.
Se pudéssemos traduzir para a linguagem de hoje o que o chefe da tribo está dizendo para Og, seria algo do tipo:
- Veja bem Og, seu desempenho não tem sido satisfatório e suas metas estão longe de serem atendidas.
- Quase não estamos encontrando frutinhas na floresta, a caça anda bem mixa e o projeto da tal de agricultura não vai para frente.
- O time está bastante descontente com a situação e caso não tenhamos algum resultado logo, vamos ter fazer uma terceirização com você.
Na linguagem da tribo isto queria dizer cortar Og em três pedaços.
O restante da tribo está à porta da cabana de Og esperando o desfecho da reunião. Alguns membros mais ansiosos estão amolando os machados de pedra.
Como não surgiu nenhuma solução satisfatória este brainstorming, o chefe deu um ultimato a Og:
- Você tem duas horas para mostrar um plano para tirar a tribo do buraco, ou…
É bom lembrar que como não haviam inventado o relógio ainda, duas horas era um intervalo de tempo bastante subjetivo.
Não é necessário dizer que Og está bastante infeliz.

Norberto tem um problema.
Ele é o equivalente moderno de um curandeiro da tribo: ele é um técnico de informática.
Assim como seu ancestral de profissão, ele não precisa carregar coisas pesadas para ganhar a vida, nem precisa pegar filas intermináveis para autenticar documentos ou pagar contas para seus chefes.
Mas, assim como Og ele tem uma responsabilidade: aplacar a ira dos deuses. Neste caso, dos deuses da tecnologia.
À frente de Norberto está o chefe da tribo, quer dizer, o diretor financeiro da empresa.
A expressão com que ele olha para Norberto é a de alguém que está com um pneu furado em seu carro, está 20 minutos atrasado para um vôo internacional e percebe que está sem estepe:
- Norberto, a rede não para em pé. O pessoal de vendas não consegue emitir pedidos e o de contas a pagar não consegue fazer pagamentos. Preciso saber o que precisa ser feito para corrigir isto antes que tenhamos um problema sério.
E para enfatizar a situação, ele ameaçou:
- Cabeças podem rolar se as coisas não melhorarem…
Obviamente Norberto sabia que não eram “cabeças”, mas apenas uma: a dele.
Ele pensou ter ouvido o ruído de machados de pedra sendo amolados.
- E então? O que vamos fazer?
Não é necessário dizer que Norberto está bastante infeliz.

Og teve uma idéia.
O chefe da tribo entra na cabana de Og seguido pelo equivalente pré-histórico de equipe de auditoria, e antes que eles comecem a desmembrá-lo, Og consegue convencê-los a ouvirem o que ele tem a dizer. Ou grunhir, melhor dizendo.
Traduzindo, o que Og disse foi mais ou menos o seguinte:
- Chefe, conversei com o Deus Criador e ele está com stress.
Ante os olhares dúvida da tribo, Og continuou:
- Se você parar para pensar, é muito trabalho para um único deus, ele tem que levar o dia, trazer a noite, depois trazer o dia de novo. Fazer as plantas crescerem para termos frutos, multiplicar os animais para termos caça e fazer a água no céu para termos o que beber.
O silêncio persistia na cabana.
- Sempre que vamos caçar ou colher frutos vamos em bando, pois um só não daria conta do trabalho, mas o Deus Criador tem que fazer tudo sozinho. Não é justo.
O silêncio passou a irradiar algo que muitos séculos depois poderia ser traduzido como “respeito”.
- Precisamos erguer outro altar para que outro deus possa ajudar o Deus Criador! Ou não haverá mais caça, nem pesca e nem frutas!
Se já houvessem inventado a história, Og teria entrado para ela.
Em uma única tacada ele inventou o politeísmo, o upgrade e a desculpa esfarrapada.
Em algumas semanas a tribo ergueu um altar para Rot-Standi-Bai o deus backup, e coincidência ou não a caça voltou, as mulheres encontraram frutas e raízes em profusão e Og não foi terceirizado.
Como dois altares eram muita coisa para ficar carregando de um lado para o outro, a tribo de Og acabou se fixando no local e fundando a primeira cidade, mas isto é outra história.

Norberto teve uma idéia.
Milênios de evolução ecoam em sua mente e ele encontra a resposta para seu problema:
- Precisamos fazer um upgrade em nosso servidor.
O diretor não se dá por achado e faz a pergunta que qualquer profissional de informática odeia:
- Por quê?
Norberto pensou em várias respostas possíveis:
Místico:
- Quem somos nós para questionar os desígnios divinos?
Fanático:
- Infiel! Blasfemador! Queimem-no!
Agressivo:
- Ei, eu por acaso te digo como fazer balancetes?
Ele acabou optando pela sua saída favorita, o obscuro.
- Bom, se você analisar o log de eventos e o monitor de performance vai perceber que várias threads estão consumindo mais de 80% da capacidade de processamento da CPU, o que claramente indica um botleneck de I/O. Isto pode ser devido à falta de memória cache para o acesso de read/write ao array de HDs ou pode ser falta de free disk space para o paging file, que pode também ter sido causado por falta de memória RAM para tantos processos rodando preemptivamente.
Para ilustrar seu ponto, tão claramente explicado, ele fez surgir uma tela onde uma linha verde se movia horizontalmente.
Se fosse um eletrocardiograma, o paciente com certeza estaria morto, ou sob efeito de algum alucinógeno muito poderoso.
O diretor financeiro deu a resposta que todo profissional de informática adora:
- Bom, eu não sou técnico…
Norberto armou seu sorriso condescendente número quatro, que transmite tanto “não liga não, um dia você aprende” quanto “mas você é burro mesmo, hein?”.
- Podemos fazer o upgrade, então?
- Sim, compre o que for necessário.
Na manhã seguinte o upgrade foi feito no servidor e coincidência ou não o ambiente voltou ao normal. Faturas puderam ser pagas e pedidos puderam ser emitidos.
Norberto sorriu para si mesmo. Em seu íntimo, milênios de evolução lhe explicavam que ele que aplacara a ira dos deuses com um sacrifício, assim como a humanidade vem fazendo por milênios. Só que ao invés de ovelhas e cabras foram bancos de memória e discos rígidos.
Claro que ele não diria tamanho absurdo em voz alta, iriam interná-lo.

Através do abismo dos milênios Og sorriu para Norberto, como quem diz: “Bom trabalho, garoto”.
Grunhindo, é claro.

Datacenter-telecom

Crônica publicada originalmente em 21/01/2003

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