e-Crônica #71 - O manual de etiqueta do celular

January 9th, 2008 by Renato Lellis

O telefone celular deixou de ser novidade faz algum tempo.
Falar ao telefone em público, fazendo compras ou dirigindo (ops! dirigindo não pode) se tornou lugar comum. Todo mundo com alguns reais no bolso e gosto por conversa fiada pode comprar seu aparelhinho “em vezes”, fazendo a alegria de operadores e do comércio varejista.

celular.jpg


O problema é que ao contrário de outros processos sociais que foram sendo refinados ao longo de décadas ou séculos, o uso do celular não é regulado por regras de boa conduta. Pelo menos ainda não. Ou se é, a maioria das pessoas as ignora.
Bater na porta antes de entrar, “dá licença?”, “obrigado”, e tudo o mais são convenções sociais, são regras que foram sendo mais ou menos negociadas e acordadas pela sociedade ao longo de séculos.
Você sabia que a expressão “obrigado” deriva de uma complexa fórmula de agradecimento que expressava a idéia de que “como você me fez um grande favor, eu me sinto obrigado a retribuí-lo na primeira oportunidade que houver”? Mais ou menos como na Máfia.
Portanto, num esforço para avançar as regras de conduta social, estou promulgando o primeiro código de conduta de telefonia móvel do Brasil. Decore e divulgue:

1- Se é importante, deixe recado.


Todo celular (e muitos telefones fixos também) tem o serviço de secretária eletrônica. Agora o mais surpreendente: muitas pessoas sabem usar o serviço. Sério. Você grava um recado e o destinatário vai poder ouvir a mensagem quando terminar a ligação, sair do banheiro (vide item 3), achar o telefone ou entrar em uma área de cobertura.
Sim, ter celular não quer dizer que a pessoa está 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, 10 anos por década à espera e à disposição de uma ligação. As pessoas não se tornaram websites.
Para garantir o entendimento, vamos fazer um pequeno teste:
Você liga para um amigo ou um colega de trabalho e o telefone toca algumas vezes e ninguém atende. O que é mais efetivo:

a- Deixar um recado no correio de voz ou secretária eletrônica pedindo para retornar a ligação
b- Ligar de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e…

Se alguém não atendeu na primeira vez as chances que ele não possa atender novamente 45 segundos depois são grandes. Se o assunto for importante deixe recado. Confie na tecnologia. Se não for, ligue outra hora.
Ah, se você optou pela alternativa b, por favor, apague meu número.

2- Identifique-se


Você já atendeu ao celular e deparou com uma voz esganiçada perguntando “Quem tá falando?”?
Vamos repassar o processo:
a- A pessoa A ligou para um certo número de telefone de forma deliberada e intencional
b- Logo, supõe-se que a pessoa A saiba com quem ela deseja falar.
c- Ou não?
Não é mais fácil informar o seu objetivo do que ficar inquirindo possíveis estranhos? Afinal você pode ter ligado o número errado.
Isto é feito facilmente, basta dizer “Alô, o Sr. Fulano, por favor?” ou “Aqui é o Cicrano, gostaria de falar com o Fulano”. Difícil? Eu não acho, e não cria o clima de hostilidade que o “Quem tá falando?” gera.
A não ser que você tenha o hábito de ligar para números aleatórios, ou tenha sérios lapsos de memória (talvez um ludovício tenha comido suas memórias, hein? Procure o Doutor Trey Fidorous e para de incomodar os outros) e esqueça com quem gostaria de falar entre o ato de ligar e o outro atender, é de bom tom identificar-se.

3- Não atenda o celular no banheiro.


O que é tão importante que não pode esperar cinco ou dez minutos? Será que você tem o código que irá desarmar aquela ogiva nuclear? Existe alguma cirurgia delicada em andamento e o cirurgião precisa tirar dúvidas com você? Ou será que você é testemunha chave em um julgamento histórico? Se for o caso, o que você está fazendo no banheiro? Vá salvar o mundo, corra!
Usar o celular no banheiro é, antes de qualquer coisa, anti-higiênico, já ouviu falar de coliformes fecais? Pois é.
Em segundo lugar, é constrangedor para o seu interlocutor. Lembre-se que o telefone é um meio de comunicação de duas vias (full duplex para os íntimos) e que ele pode ouvir os ruídos do ambiente à sua volta. Já pensou nisso?

4- O identificador de chamadas funciona.


Se você já se sensibilizou com o item 1, saiba que às vezes nem é necessário deixar recado.
Como?
Simples, a maioria dos telefones celulares já tem o serviço de identificação de chamadas. Li em algum lugar que ele foi inventado por um brasileiro, mas que ele nunca recebeu o reconhecimento pela sua invenção, todo mundo usa a invenção dele e ele não ficou rico, é por coisas assim que esse país não vai para frente e…
Ah, sim, claro, voltando ao assunto.
Como o telefone celular do seu destinatário tem um identificador de chamadas, ele sabe o número de quem está ligando, e poderá ligar de volta quando puder. Se ele não atender depois de três ou quatro toques, talvez esteja no cinema, no banheiro, dormindo ou em outra ligação - alguém sabe como faz para atender a segunda ligação neste aparelho aqui? Não agüento mais esse bipe! - ou algo parecido.
Existem alguns detalhes, como por exemplo, se você estiver ligando de um PABX, o que ficará registrado será o número do tronco e outros detalhes, mas você pegou a idéia, não?

5- O fixo primeiro.


Seu colega tem um telefone celular e um fixo, qual você liga primeiro?
- O celular, claro.
Mas por quê?
- Não sei, eu também tenho esta dúvida.
Se o seu colega tem um telefone fixo, isto quer dizer que ele tem uma mesa fixa, uma base, um lar, uma baia para chamar de sua. Sabe quantas pessoas lutam para ter uma posição de trabalho fixa? Por que não honrar este privilégio?
- Não sei, nunca tinha pensado nisso.
Então, por que não tentar ligar primeiro para o fixo?
- E se ele não estiver?
Aí você liga para o celular.
- Mas é muito trabalho ligar para dois números? Eu tenho preguiça.
Encare como uma espécie de exercício. Você se matriculou na academia, pagou uma fortuna pelo semestre e só foi um dia, fica pegando a escada rolante ao invés subir dois andares de escada e agora não quer nem fazer o esforço de apertar oito botões a mais, faça-me o favor!
- Eu não quero. Você não manda em mim.
Tudo bem, então vamos pensar da seguinte forma: ligação para telefone fixo é mais barata.
-Ah, por que você não disse antes?


placa.jpg


Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Brazil License


Technorati :
Del.icio.us :

Powered by Zoundry

Posted in e-Crônicas |

2 Responses

  1. Laura Says:

    É, Renato, você tem razão, não tem como a gente ser um só, né? Mas a gente precisa levar vários “tombos” para aprender. E parece que mesmo assim a gente acaba errando de novo.
    Obrigada pela visita, estarei sempre por aqui.
    Beijão!!!

  2. Dom Says:

    Olá, te linkei no meu site. Você poderá verificar a conexão na madrugada de sábado para domingo. Ótimo conteúdo do teu site.

Leave a Comment

Please note: Comment moderation is enabled and may delay your comment. There is no need to resubmit your comment.