e-Crônica #66 - Revista Fracasso

March 5th, 2007 by Renato Lellis

Repórter: Temos hoje como convidado o editor e fundador da revista mais incomum do mercado editorial moderno, a Revista Fracasso. Boa noite Fábio Kaput.
Fábio Kaput: Boa noite. Espero nunca entrevistar você.


Repórter: Como assim?
Fábio Kaput: Bom, esta é uma brincadeira da redação, é uma forma de desejar boa sorte. Afinal só fazemos matérias com pessoas que fracassaram de alguma forma. Às vezes de mais de uma forma.
Repórter: Ah, entendi. Bom, para começar, como surgiu a idéia da revista Fracasso?
Fábio Kaput: Na verdade a revista se chamava Sucessus, mas já havia tantas revistas tratando de celebridades e coisas assim que a concorrência era muito grande. Sem dizer que celebridade com algo a dizer é um artigo raro no atual mercado. Para não quebrar tive que mudar a linha editorial.
Repórter: Quer dizer que a revista Sucessus foi um fracasso?
Fábio Kaput: Exato. E torcemos para que a revista Fracasso seja um sucesso.
Repórter: É claro. Conte mais sobre o início da revista.
Fábio Kaput: Como eu falei, a linha de entrevistar celebridades não estava dando certo. Principalmente por falta de matéria prima. Mas percebemos que havia um grupo de pessoas que faria qualquer negócio por um pouco de exposição.
Repórter: As ex-celebridades.
Fábio Kaput: Exato. Muitas pessoas praticamente implorando por algumas fotos e páginas impressas com o nome delas. Muitas delas, aliás, implorando literalmente.
Repórter: E dá certo entrevistar pessoas assim?
Fábio Kaput: Tem as suas vantagens. O cachê é muito menor, quando existe, nossos entrevistados não tem ataque de estrelismo e eles tendem a ser muito mais sinceros do que os de outras revistas.
Repórter: Como assim?
Fábio Kaput: Normalmente quando a pessoa chega ao topo, tem vários esqueletos no armário. Sócios e funcionários que foram passados para trás, parceiros criativos que nunca foram creditados, uma família, ou famílias deixadas ao relento, namorados e namoradas abandonados, a lista é grande.
Repórter: E qual a vantagem?
Fábio Kaput: Quando a pessoa chega ao fundo do poço, já não tem que se proteger deste tipo de problema, às vezes é até ao contrário, querem expiar os erros para se aproximar dos antigos amigos, às vezes para ter onde morar. É uma lado muito humano da questão, entende?
Repórter: Entendo.
Fábio Kaput: E ninguém precisa dourar a pílula do caminho para baixo. As pessoas são mais verdadeiras quando contam a história da queda do que a da ascensão. Aliás, muito pelo contrário, todo mundo quer contar cada detalhe escabroso. Normalmente temos que cortar várias páginas para conseguir que a entrevista fique num tamanho adequado.
Repórter: E a resposta dos leitores, como foi?
Fábio Kaput: A melhor possível. Eu aprendi que as pessoas têm curiosidade sobre histórias de sucesso, mas tem muito mais sobre desastres e tragédias. Chega a ser assustador.
Repórter: E vocês têm encontrado alguma dificuldade?
Fábio Kaput: Bom, nem sempre é fácil encontrar anunciantes…
Repórter: Imagino. O que mais?
Fábio Kaput: Além disso, nem sempre é fácil escolher quem entrevistar. Que história de desespero e humilhação o leitor quer este mês? O debate na redação sempre começa assim.
Repórter: Imagino que seja difícil encontrar as pessoas.
Fábio Kaput: Pelo contrário. A oferta é grande demais. Temos cantores de boy bands e participantes de reality shows que acampam na porta da redação, mesmo depois de terem aparecido na revista. Tivemos que aumentar a segurança.
Repórter: Nossa. E qual o critério que vocês usam?
Fábio Kaput: Temos um mix básico: um artista fracassado, um ex-esportista deprimido e uma ex-gostosona desiludida tem que constar de cada edição. O resto vai de acordo com o momento.
Repórter: Vocês nunca entrevistam políticos?
Fábio Kaput: Já viu um político fracassado? Mesmo quando perdem as eleições a maioria já recebeu tanta propina que deveria estar na Sucessus, se ela existisse.
Repórter: E quem você gostaria de entrevistar, mas nunca conseguiu?
Fábio Kaput: Desde o número um estamos tentando contato com Michael Jackson e Mike Tyson, mas eles nunca retornam nossas ligações. Não sei por quê.
Repórter: Planos para o futuro?
Fábio Kaput: Mês que vem vamos lançar uma outra publicação, a Fracasso Business.
Repórter: Não é um tanto contraditório? Quero dizer, revistas de negócios sempre falam de resultados positivos.
Fábio Kaput: Nem um pouco. A história dos grandes fracassos é muito mais educativa do que a história dos grandes sucessos. Sem falar que as chances da história ser verdade são muito maiores. Podemos criar uma nova cultura corporativa, quem sabe?
Repórter: Para encerrar, gostaria de te desejar boa sorte, e espero que você nunca apareça em sua revista.
Fábio Kaput: Obrigado e até a próxima. No bom sentido, quero dizer.

Fracasso

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